O meu coração ficou em Cuba
abril 14, 2020
Nos últimos anos eu e o Ricardo realizámos algumas viagens que nos surpreenderam, no entanto a nossa viagem a Cuba sem dúvida foi aquela onde me deslumbrei mais. Não foram propriamente pelas as praias, mas sim pela cultura do país em si. As praias são belas sim, mas as pessoas são ainda mais belas.
Quando pensamos em Cuba automaticamente vem-nos à cabeça comunismo e embargo económico, o que acaba tornando um país com uma realidade bastante distante da nossa, mas também é isso que o torna tão instigante. Aqui irei contar-vos um pouco da nossa experiência para entenderem o que vos estou a dizer.
Quando aterramos em Havana já estava a noite feita, assim que chegámos fomos abalroados com um calor que não estávamos acostumados, pois como se tratava do final do mês de outubro e vínhamos da Europa, as nossas roupas não eram as mais apropriadas para o local. Passámos facilmente pelo controlo de fronteiras, contrariamente ao controlo em que uns meses antes fomos confrontados nos Estados Unidos da América, ali foi apenas entregar o passaporte, olhar para a câmara e seguir. Após passar a fronteira fomos então para a zona onde iríamos recolher a bagagem e aí começaram as primeiras consequências do país estar “parado no tempo”, para além do ar condicionado não estar a funcionar, o tapete da bagagem fazia um ruído muito estranho devido à idade. Para nossa surpresa e sem qualquer aviso prévio o tapete da bagagem deixou de funcionar. Deixando-nos todos bastante impacientes, pois para além de estar um calor insuportável, de termos transfers à nossa espera com horários específicos, estávamos num país completamente estranho para todos nós e sem as nossas bagagens. Passados alguns longos minutos lá conseguiram trocar a nossa bagagem para o outro tapete (é importante referir que apenas haviam dois tapetes para todos os voos que chegavam a Havana e um deles estava avariado), assim que recolhemos a nossa bagagem lá conseguimos seguir com o plano e ir em direção ao transfer.
A viagem desde o aeroporto até ao centro de Havana foi bastante interessante, ao longo da mesma pudemos observar que nas ruas apesar de ser noite cerrada havia pessoas à beira da rua aguardando as suas habituais boleias para casa, até aí tudo bem, mas o que espantou mais é que elas estavam às escuras, pois não havia os postes de eletricidade ao qual estamos habituados, a única luz que iluminava essas pessoas eram os faróis dos carros à medida que passavam, o que tornava o cenário um pouco assustador. Como não havia presença de muita luz foi difícil ter noção dos famosos conversíveis americanos que compõem as ruas de Cuba, tirando alguns junto ao aeroporto, no percurso até ao hotel devido à escuridão não nos foi possível ver os famosos carros.
À medida que nos aproximávamos da cidade de Havana a escuridão começava a diminuir e a luz a dar o ar da sua graça.
Já no centro de Havana chegámos sãos e salvos ao nosso hotel, Hotel Plaza. Um hotel de 4 estrelas, junto ao parque central. É exatamente nessa zona que durante o dia ficam dispostos os conversíveis americanos de diversas cores vivas e chamativas na sua grande plenitude, ou seja, ficamos muito bem localizados na cidade.
O lobby do hotel é impressionante. O lobby é composto por uma receção à esquerda, os elevadores ao centro e um bar com uma fonte à direita, onde se ouvia várias vezes cantores de rua a tocar músicas ao ritmo da famosa salsa cubana, ou num registo mais calmo tocavam um velho piano escondido no fundo.
Apesar de termos ficado impressionados à primeira vista, tudo foi por água abaixo quando conhecemos os quartos (quartos, no plural sim, no total passámos por 3 quartos), inicialmente deram-nos um quarto com duas camas, descemos e pedimos para trocar, depois deram-nos uma suíte lua de mel, que era bastante estranha.
Tinha uma sala logo à entrada, um quarto ao fundo à direita e uma casa de banho à esquerda. O quarto cheirava muito a mofo e a roupa da cama era muito esquisita. Dormimos nesse quarto a primeira noite, depois tivemos que trocar porque no segundo dia tiveram de arrombar a porta, pois esta não abria. Depois deram-nos outra suíte no mesmo andar, um pouco mais pequena, mas igualmente estranha. Tinha móveis estranhos, a roupa de cama novamente era exótica e o cheiro a mofo também estava presente. Ah! Não me posso esquecer do ar condicionado, quando o ligávamos parecia que estávamos num campo de guerra de tão barulhento que ele era. Optámos então por dormir com ele desligado, o problema é que durante a noite acordámos a assar vivos com o calor que se fazia naquele quarto.
Porém para compensar todos estes dissabores, fomos compensados por uma vista lindíssima do terraço onde tomávamos o pequeno almoço e por um saboroso e diverso pequeno almoço (prefiro não imaginar a limpeza da cozinha do local, limitei-me apenas a degustar do fantástico pequeno almoço).
Os dias que passámos em Havana foram sem dúvida espantosos, pena não termos ficado mais tempo na cidade. Almoçamos e jantamos em locais fantásticos, onde pudemos provar a fantástica comida cubana, não que tivéssemos muitas outras hipóteses visto que, o país é comunista.
Apesar de não encontramos McDonald's em Cuba, podemos encontramos coca-cola (embora seja feita no México).
Ainda que tenhamos passeado muito a pé, houve uma coisa que me deixou intrigada. Não encontrámos uma única loja, tipo supermercado. Sei que há, mas nós não encontrámos nenhum. Vimos muitas bancas tipo mercado/feira na rua com fruta, flores, carne…, mas supermercados para comprar água “está quieto”. Numa tarde que não aguentámos mais a sede tivemos de optar por comprar uma água de coco. Apesar de ser uma cidade com um aspeto muito velho, já se começam a ver algumas obras de restauração.
As pessoas lá são fantásticas, para vocês entenderem na primeira noite que lá passámos chegámos tarde ao hotel e ainda não tínhamos jantado, à porta do hotel fomos abordados por um homem, um pouco incertos lá conversamos com ele, ele apresentou-se e fez-nos muitas perguntas, quando percebeu que ainda não tínhamos jantado, ele ofereceu-se para nos levar a um restaurante onde iríamos ficar muito bem servidos. Um pouco desconfiados lá o seguimos, ele começou a levar-nos por ruas velhas e com pouca luz, embora temerosos continuamos a segui-lo. Apesar dele nos tentar acalmar, nós estávamos apavorados. Ele apenas dizia que era seguro e para não termos medo que se observássemos as pessoas à nossa volta eram turistas e estavam calmos (mas pensando bem, isso seria o que qualquer pessoa que nos quisesse fazer mal diria). Ele acabou por realmente nos levar a um restaurante (que o Ricardo amorosamente intitulou de “bar de strip”), onde comemos muito bem. O certo é que ele fez isso com a intenção da gorjeta (prática muito comum lá), mas nesse tempo contou-nos um pouco da sua história e realmente a sua vida não era fácil, sendo que ele admitiu que com o salário dele, nem uma bicicleta conseguia comprar e isso comoveu-nos, porque aqui em Portugal damos essas coisas por garantido e noutras partes do mundo a vida nem sempre é um mar de rosas. Senti que apesar deles nos abordarem com o intuito da gorjeta, ouvirem um pouco das nossas histórias os faz sonhar com uma vida distante dali bem mais fácil do que aquela que eles conhecem. Ao longo dos dias fomos abordados por imensas pessoas, que nos iam contando um pouco da vida deles e também nos questionavam pela nossa em Portugal. O interesse deles conhecerem através dos turistas a vida lá fora é bastante evidente. Uma troca de testemunhos, onde nós tentamos nos colocar no papel deles e eles no nosso.
Em Havana andámos nos famosos conversíveis americanos, uma atividade quase que obrigatória de quem vai a Cuba. Passeamos durante uma hora num carro rosa (à macho) pelas ruas de Havana, com o condutor sempre a explicar um pouco da história da ilustre cidade. A maior prova de honestidade que tivemos foi nesse passeio, quando parámos no parque de John Lennon e deixamos a nossa mala com as carteiras e o telemóvel do Ricardo e nos afastamos para conhecer o parque. O motorista ficou encostado ao carro à nossa espera com a consciência que os nossos pertences se encontravam no banco traseiro do carro. Ele podia ter sido desonesto pegado no carro e ido embora, afinal éramos turistas nunca mais o encontraríamos na vida, mas não ele apenas ficou ali à nossa espera exatamente na mesma posição o tempo todo. Isso para mim foi uma atitude de louvar. Embora a pobreza seja extrema, o que podia aliciar à criminalidade, apesar disso as pessoas continuam honestas. Esse feito é muito nobre, pois essas pessoas mostram que não é por nascer num local pobre e sem condições que obrigatoriamente serão criminosas. Duas condições que normalmente tendemos a associar.
Nas ruas de Cuba a animação perdura noite e dia. Por todas as ruas, becos e ruelas podemos ouvir bandas locais a tocar êxitos cubanos, juntamente com vários bailarinos que se deleitam a dançar a famosa salsa cubana ao ritmo dessas bandas.
Sobre Havana ainda resta contar aquilo que ninguém conta, pois apesar da maravilhosa experiência e de todas as coisas boas, falta falar da poluição extrema provocada pelos gases largados pelos carros que por serem antigos não contam com as tecnologias modernas para catalisar esses gases. As ruas por serem velhas estão bastante estragadas e partidas, cheias de poças de água provocadas pelas chuvas tropicais. As casas estão com a tinta gasta e em algumas zonas já nem tinta tem, dando um balde de água fria àquela imagem das casas coloridas cubanas. E finalmente, o cheiro a fossa. Sendo uma cidade velha a canalização deve estar muito comprometida o que origina mau cheiro por várias zonas da cidade. Contudo, apesar de todas essas coisas a cidade não perde o seu encanto, porque o que a adorna são as pessoas e o espírito das mesmas, não essas coisas menos boas.
Depois de explorarmos a cidade parada no tempo, rumámos para Varadero. Um famoso município em Cuba composto por vários quilómetros de resorts à beira mar. Quando estávamos em Havana, houve um dia no final da tarde que falámos com um habitante local que nos disse algo que me deixou a pensar. Apesar da beleza das praias de Varadero, a verdade é que os habitantes de Cuba não a podem conhecer. Fica demasiado caro para um habitante local. Apenas os turistas podem usufruir da beleza natural da costa de Varadero.
O caminho desde a cidade de Havana até Varadero foi tranquilo. Fizemos uma paragem junto a um miradouro lindíssimo, onde podemos observar da natureza tropical do país e a ponte de Bacunayagua. Aí servem uma Piña Colada por 5 CUC, que segundo o senhor que nos acompanhou no transfer é uma das melhores que ele já provou em Cuba, não o pudemos constatar porque infelizmente não tínhamos dinheiro suficiente levantado. Limitamo-nos apenas a beber um café. Após uma pausa de 25 minutos, continuamos rumo a Varadero, passando pela cidade de Matanzas [ conhecida pela cidade das pontes, 17 no total, mas, também pelas suas grutas ]. Por fim, chegámos a Varadero e começamos a distribuir as pessoas pelos resorts à medida que vamos avançando pelo seu interior.
Em Varadero ficámos hospedados no Iberostar Tainos, um fantástico resort um pouco mais pequeno do que aquele que tínhamos ficado no México, mas muito bom igualmente. Optámos por ficar num dos quartos dos Bungalows e não nos quartos do edifício principal. O nosso quarto era bastante espaçoso, moderno e com uma casa de banho igualmente grande. Muito importante mencionar que contrariamente ao quarto em Havana, este era bastante limpinho e moderno.
A animação do hotel é fantástica. Durante o dia há sempre pessoas a animar a praia, ou então junto à piscina. Às sextas feiras o almoço é feito junto à piscina onde é acompanhado por animação típica Cubana, com direito a músicos e bailarinos, mas claro quem não quiser comer junto à piscina pode ir ao buffet normal. Antes do jantar há uma praça junto ao restaurante principal e ao bar noturno onde há sempre música e dança, e como não podia faltar após o jantar temos sempre espetáculo noturno com danças e até concursos [ eu e o Ricardo inclusive participamos num concurso de casais ].
O hotel dispõe de vários restaurantes, lojas, bares, ginásio tornando a estadia bem mais agradável. A internet apenas está disponível em algumas zonas do hotel, mas é sempre necessário comprar aqueles cartões de internet [ 1 hora - 1 CUC ], é importante mencionar que o mesmo acontecia em Havana, no hotel apenas tínhamos internet em algumas zonas e fora do hotel em algumas praças, sempre com o cartão pago que nos dá uma chave de acesso.
Durante a nossa estadia ali para além de desfrutarmos da praia, fizemos duas excursões. A primeira a Matanzas e depois a Cayo Blanco.
A visita a Matanzas foi bastante histórica, contudo interessante. Como mencionei antes a cidade é conhecida pela cidade das pontes, contendo nela 17 pontes. Visitamos as Cuevas de Bellamar, umas grutas bastante bonitas no subsolo da cidade. A cidade é bastante limpa e organizada exatamente o oposto da cidade de Havana.
A outra excursão pela qual optámos foi ao Cayo Blanco, uma ilha paradisíaca junto a Varadero. Para visitar a ilha temos que obrigatoriamente nos inscrever numa excursão. A viagem até à ilha é feita de Catamaran. Durante a viagem temos música, bar aberto e um animador para tornar o percurso até à ilha mais agradável. Mais ou menos a meio do percurso, fazemos uma paragem em alto mar para quem quiser fazer snorkeling. Os mais corajosos podem nadar livres, mas para os mais receosos podem optar por usar um colete. É sem dúvida uma experiência única. Aconselho vivamente a quem optar por fazer esta excursão a dar um mergulho nas águas fundas e cristalinas de Cuba.
Assim que avistamos a ilha notamos que ela é uma ilha selvagem com um único restaurante junto à praia. O almoço e as bebidas na ilha estão incluídas no preço da excursão. Durante várias horas estamos livres para usufruir da praia, do bar aberto e do mar calmo e com uma temperatura acolhedora.
Depois pelas 16h os catamarans voltam para nos levar de volta a Varadero e novamente o percurso é feito com muita música e bebidas.
Durante a nossa estadia em Varadero visitamos também o Delfinário ficava junto ao nosso hotel. O caminho até lá fizemos a pé e passámos por uns campos onde estavam dois dromedários a descansar, um pouco reticentes aproximamo-nos deles e fizemo-lhes mimos. Depois seguimos para o Delfinário, lá podemos assistir a vários golfinhos a fazer acrobacias. É realmente um espetáculo bonito, apesar da água ser um pouco turva podemos ver bem os truques dos golfinhos.
Dado tudo isto, Cuba é sem dúvida um país fantástico, claro que quem visita este país tem que ir de mente aberta, uma vez que vamos vivenciar uma miséria ao qual não estamos habituados. Apesar de já se começar a ver uma certa modernização, Cuba ainda é um país com claros sinais de ter ficado parado no tempo. Em suma, são mais as coisas boas que marcaram a nossa viagem, do que as negativas. E sim, iremos voltar certamente a Cuba.
Videos da Viagem
// Todas as fotos e videos são da nossa autoria.



















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